O Flamengo que eu quero
O Flamengo é universalmente conhecido como o time do “se chegar, fudeu”. É o time que cresce quanto maior for o adversário, que perde jogos ridículos e ganha os mais improváveis. Que enche estádios em qualquer situação. É o favorito de qualquer final. E agora, nessa reta final do Brasileirão, essa famosa frase volta à tona. A recuperação e a arrancada do time foi fantástica, daquelas de entrar para a história do campeonato. Mas até onde isso é bom para o time agora?
Na verdade não é nada bom. Porque, contrariando a força do time em decisões, o Flamengo é o time do oba-oba. Aquele que perde pro América do México depois de ser campeão estadual. Aquele que perde para o Santo André na decisão da Copa do Brasil. Aquele que perde para o Barueri quando ganha do SP, do Palmeiras e do Atlético Mineiro. E agora, pensando friamente, o Flamengo de hoje é o do oba-oba ou o do “se chegar, fudeu”?
Prefiro responder nenhum dos dois. Porque no fundo os dois representam aquele Flamengo superior, favoritíssimo, acima do bem e do mal e que normalmente se ferra no final das contas. E não é esse Flamengo que eu quero. E sinceramente, não é esse Flamengo que o time representa hoje.
Vamos pensar o Corinthians rapidinho, da estrela maior, o Gorducho. O Mano disse hoje que se não fosse a fratura, ele iria fazer 30 gols na temporada. O próprio disse ontem que tem técnica e precisa saber usar de vez em quando. O Dentinho vive abrindo a boca para falar do ídolo maior. Fora o fato que o time esqueceu que o Brasileiro também é um campeonato bacana para pensar na Libertadores (campeonato que eles vão perder e eu vou rir muito). Isso é um time unido? Para mim não. Parece que o Corinthians virou Ronaldo Futebol Clube e ponto final. E as coisas no futebol não são bem assim.
Agora vamos pensar no Flamengo. Você pode até me dizer que é o Flamengo de Adriano. Mas também é o Flamengo de Pet, o Flamengo de Bruno, o Flamengo de Maldonado. Cada jogo é de um jogador diferente e o cara que teoricamente é a estrela máxima está com uma humildade absurda e falando para quem quiser ouvir que ele não seria o Imperador e artilheiro do campeonato sem ajuda de companheiros. Um time não se faz com um jogador, se faz com os 30 ou mais que treinam todo dia.
E se faz principalmente com um técnico que tem um pé no chão incrível. Hoje ninguém é mais perfeito para o Flamengo que o Andrade. Ele é o contrário de todos os técnicos que existem por aí. Educado, de uma simplicidade absurda e fala a língua do jogador. Chega a ser irônico com a história do clube, mas o perfeito para o Flamengo é o cara que fala Framengo. Ele conquistou tudo pelo time e talvez por isso saiba qual a melhor forma de chegar lá de novo. E está fazendo um excelente trabalho.
Há muito tempo eu não via um Flamengo tão disciplinado taticamente, tão unido e principalmente humilde. O time joga hoje um futebol simples, sem invenções e firulas, com cada um fazendo a sua parte. Se isso vai resultar no hexa, não sei. Ainda faltam 4 rodadas, tem dois times na frente na tabela, dois atrás coladinhos, muita coisa pode acontecer. Mas esse time já é um presente, uma coisa que vai ficar guardada na história do clube. Jogadores e comissão técnica que conseguiram coisas que ninguém imaginava que fossem acontecer, ainda mais em um período político. Tirando o final da época Cuca, esse ano quase não teve crise. Isso é inédito. Até a torcida dessa vez está calma, está tranqüila. É bom ver que o time conseguiu essa estabilidade. O Flamengo hoje não é mais o time que muita gente zomba e que ninguém acredita. Ok, nenhum jornalista ou comentarista acredita no Flamengo, e que continuem não acreditando porque está dando certo. Mas o Flamengo hoje é respeitado como não era há muito tempo. E essa é a maior conseqüência do trabalho que foi desenvolvido esse ano e que engrenou de vez com a chegada do Andrade.

