Futebol e religião: uma possível bomba relógio

Futebol e religião: uma possível bomba relógio

Há seis meses atrás a Fifa proibiu propaganda religiosa na camisa dos jogadores de futebol no mundo inteiro, e advertiu principalmente o Brasil. Eu concordo. Pode aparecer censura religiosa isso, mas a questão é que religião e futebol se misturam cada vez mais e isso tem que ser contido de alguma forma. Não por que eu defendo uma ou outra religião, mas é porque eu penso que as pessoas são ignorantes mesmo, preconceituosas e intolerantes.

Eu particularmente não tenho crença nenhuma. Fui batizada na igreja católica, fiz primeira comunhão, mas só. Eu tenho uma relação esquisita com igreja. Missas me incomodam mas eu adoro visitar igreja quando eu viajo, pela arquitetura e pela história. Mas eu acredito que existe alguma coisa lá em cima. E no fundo essa coisa é a mesma de todas as religiões, as pessoas é que têm formas diferentes de encontrar. Acho que o mais importante numa religião é a fé. É acreditar que dias melhores virão, que problemas podem ser resolvidos, que doenças podem ser curadas. Não adianta nada ir na igreja todo domingo e rezar quinhentos pai-nossos sem ter fé. E também não adianta nada achar que só isso adianta. As pessoas têm que batalhar pelas coisas também, senão nada acontece. Acho que Deus coloca obstáculos e oportunidades no nosso caminho e depende da gente fazer isso dar certo ou errado. Eu não acredito em coincidências também. Tudo acontece da forma que tem que acontecer e resta a gente entender o motivo disso.

Eu admito que determinados rituais de algumas religiões me parecem estranhos e sem sentido. Mas eu respeito. Na época da faculdade eu sempre discordava nas discussões sobre islamismo, que sempre tinha aquelas meninas de shortinho que diziam que a burca tinha que acabar. Eu até concordo, mas não sou eu que tenho que mudar a religião deles. Uma revolução para dar certo tem que ser feita de dentro para fora, não com motivações externas. Da mesma forma que mulheres fogem de casamentos, muitas delas usam a burca e respeitam a religião com unhas e dentes. E se acabar com a tradição, como que essa parte da população fica?

Mas vamos voltar ao futebol e pegar um caso recente, do André Santos. O Fenerbahçe está dizendo que vai negociar ele e mais sei lá quantos jogadores porque teriam participado de orgias num hotel. Se isso fosse na Itália ou no Brasil, nada ia acontecer. No máximo ia virar matéria do TV Fama e as mulheres iam aparecer na Luciana Gimenez. Mas foi na Turquia. Um país que nem na União Européia entrou ainda devido a sua religião. Um país que tem 99% da população muçulmana. O cara tem que se tocar do que ele está fazendo. Isso conta a evolução que o futebol está tendo no mundo árabe. São salários milionários, estruturas incomparáveis com o resto do mundo, mas um estilo de vida diferente. O cara que vai para o Oriente Médio para fazer o pé de meia dele tem que ter consciência de que não vai ter balada, que não vai ter um mundo de mulheres em volta dele, que alguns lugares nem cerveja vai vencer no supermercado. Até as esposas vão sentir a diferença de ter que andar de véu em determinados lugares.

E isso não é uma questão de censura ou falta de liberdade. É uma questão de respeito. Você não vai na casa um de amigo pela primeira vez e sai abrindo a geladeira. Eu prefiro que meus amigos abram a geladeira sozinhos, mas eu tenho que dar permissão antes, senão vai ficar tachado de folgado. É a mesma coisa com religião. Crença nenhuma é superior as outras e as pessoas deveriam entender isso um pouquinho. Tem que ter respeito. Eu não vou viajar para o Irã e sair de biquíni na rua, por exemplo. Determinadas ações para mim são normais e para outros não. É aquele velho ditado que a minha liberdade termina onde começa a dos outros.

Penso sim que a religião pode ser encarada como um problema, da mesma forma que o racismo. Da mesma forma que o Angelim conta que os evangélicos ficavam sacaneando a devoção em Padre Cícero, imagina o dia que algum jogador decidir fazer piada com outro jogador árabe, por exemplo? Ia dar uma confusão. E não acho que vai demorar para isso acontecer não. Porque as pessoas são intolerantes e a religião é cada vez mais presente na vida dos atletas, além do fato de que o futebol está cada vez mais globalizado. E a decisão da Fifa está certa, ela está evitando um possível confronto, já que algumas pessoas podem se sentir ofendidas com determinadas mensagens. Se o mundo soubesse se respeitar mais, isso não seria necessário. Mas quando ainda se constroem muros para separar territórios com religiões diferentes, o certo é esse mesmo.

Tags: , , ,

Leave a Reply





25 anos, carioca com orgulho, jornalista, flamenguista doente mas não odeia nenhum outro time, já morou no País de Gales mas prefere a Inglaterra, adora rugby e não suporta basquete, acha o Zidane o maior jogador de futebol que viu jogar, viciada em Lost e Jack Bauer, odeia novelas do Manoel Carlos e nunca vai colocar o nome da filha de Helena e tem o Johnny Deep como o cara mais lindo do mundo.

Assine nosso Feed